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Choro presente, consolo futuro

            



     “Abençoados são os que choram, porque eles serão consolados.”  Mateus 5.4 (BKJ 1611)

       Um rápido olhar para essa bem aventurança e poderíamos pensar que houve um equívoco em sua escrita. Não seria justamente a ausência do choro e da tristeza que nos faria sermos seres humanos abençoados e felizes? Eis um bom motivo para não lermos a Bíblia submetendo os ensinamentos do reino de Deus à realidade do reino desse mundo que aguarda redenção. Aos discípulos de Jesus cabe agir tal qual o seu mestre agiu, nem aquém, nem além (Mt 10.25a). No sermão do Monte, Cristo apresenta que a atitude correta do discípulo não se pautava na imitação da libertinagem pagã e muito menos no legalismo dos religiosos. Havia um outro caminho e plenamente abençoados seriam os que por ele seguissem.


       Em ligação com a bem aventurança anterior (“pobres de espírito”, Mt 5.3), Jesus apresenta o choro como característica do discípulo. Quem se depara com seu pecado e sua incapacidade de ser pelas próprias forças aquilo que foi criado para ser, reconhece sua necessidade para com Deus. O choro a que Jesus se refere está ligado a um lamento espiritual pela condição do pecado que afeta não apenas o modo de pensar do ser humano, mas também o seu modo de agir. Por causa do pecado, não apenas a distorção do que é certo invadiu a nossa realidade, mas também a própria morte como o salário para tamanho mal (Rm 6.23).


       Entretanto, se a vida já é tão dura por tamanhos desafios que dela fazem parte, não seria melhor que Jesus nos incentivasse a sorrir, em vez de chorar? O curioso é que esse argumento se encaixa bem em nossa forma de agir na sociedade. Há um incentivo para que o prazer e a felicidade sejam alcançados a qualquer custo, justificando qualquer meio para se encontrar o final desejado. O problema é que o culto à felicidade a qualquer custo é o que contribui para que não vejamos a realidade como de fato ela é. A tentativa em se manter uma aparência positiva e feliz para todas as coisas, muitas vezes nos leva a uma omissão e procrastinação para enfrentar os desafios. Preferimos não nos envolver para não sofrer a ver o problema de frente e inevitavelmente nos entristecer por ele. O grande paradoxo é que somente através dessa última atitude é que de fato haverá progresso e o surgimento de um solo fértil onde a esperança para dias melhores renascerá.


       Como o pastor Martyn Lloyd Jones recorda, “o negativo precede o positivo”[1]. Antes da alegria em sermos justificados mediante a fé em Cristo, coube a ele a dolorosa morte de cruz. Antes da alegria que acompanha a genuína conversão, nos deparamos com a fincada da convicção dos nossos pecados. Antes da alegria da mãe em receber o filho nos braços, vem a tensão do momento do parto.


       É importante lembrar que a característica do choro não é algo que contribua para que o cristão viva num estado de melancolia, cinismo e muito menos indiferença quanto ao próximo e à sociedade. Na verdade, o lamento espiritual pela presença do pecado em nosso meio é o que nos leva a sermos mais compassivos com os que estão ao nosso redor; amorosos com aqueles que ainda se mantêm cegos pelo deus deste mundo (1 Co 4.4); dispostos a perdoar os que nos ofendem, até porque diariamente Deus nos perdoa por conta dos pecados que cometemos contra ele (Mt 6.12).


       Como um autêntico ensinamento cristão, essa bem aventurança não se restringe ao tempo presente, porém, nos aponta para a esperança vindoura, a glória futura que há de ser revelada, a qual pesa mais do que qualquer sofrimento atual. A alegria não será plena aqui, mas a fé cristã nos ensina que o futuro invadiu o presente e já podemos nos alegrar pela promessa deixada pelo nosso salvador: “porque eles serão consolados.” Enquanto cristãos, será prudente de nossa parte não nos esquecermos de que a esperança faz parte do nosso caminhar. Enquanto ela não nos invade plenamente, sinalizemos seu poder através da pregação do Evangelho, através da comunhão uns com os outros, consolando e sendo consolados até que um dia, face a face, os nossos olhos contemplem o verdadeiro Consolador. 


Luiz Felipe G.Silva






[1] [1] Lloyd-Jones, D.M. Estudos no Sermão do Monte. São José dos Campos, Sp: Editora Fiel, 1984. l. 1069. Arquivo Kindle

Comentários

  1. Meu irmão, sou grato a Deus por nos presentear com Sua Palavra. Ainda mais grato por juntos seguirmos no Caminho, no ministério e na vida. Tamo junto!

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